Saturday, November 05, 2011

can't you see I'm trying?

miorrelaxante
contração muscular
solúvel em álcool
não sai do lugar

florais de bach
fisioterapia
acupuntura
auricular
homeopatia

o mundo padece
as soluções se multiplicam
nada resolve
a dor me enlouquece
os sintomas se complicam

agulhas torturam
choques estimulam
nada funciona
nada muda

não tem causa
não tem solução

dia e noite
noite e dia
sem parar por um instante
o festival ininterrupto
de dor fulminante

síndrome dolorosa
crise sem fim
antiinflamatório
disfunção
sanatório

analgésicos
explosivos
intravenosos
tratamentos
intrusivos

não sei mais lidar
não sei o que fazer
não consigo aguentar
eu quero acreditar
mas não dá mais
não dá mais

nem por um segundo
se é assim
viver nesse mundo
eu não quero, eu não posso

agora eu tento
depois de um milhão de vezes
é a última chance
antes que tudo exploda

sem pressão
só dizendo,
como quem não quer nada
é a última jogada

se isso não me curar
se isso não funcionar, vovô
não tem problema
é a última erupção
não vou me surpreender
se isso não resolver
pois essas balas aqui irão!

Friday, November 04, 2011

distração

Amanhã será diferente
eu prometo pra mim mesma
um milhão de vezes
enquanto cruzo os dedos
e espero alguma coisa
acontecer

Amanhã, se você não esperar demais
o centro do seu mundo
se desloca pra qualquer direção
e eu não vou esperar demais
de você

Amanhã quem sabe
talvez, pode ser
não sei, vai saber?

Não há mais verdades
pra dizer
não há mais vontade
de fazer
o que quer que seja

Pela manhã você vai ver
que somos fracos mesmo
e as coisas acontecem
se tem que acontecer
ou não

E eu não consigo lutar
contra as suas palavras
por mais que eu queira segurar
a sua mão

Eu não consigo
Eu não posso
te salvar
se nem eu estou no chão

Eu só posso te pedir pra esperar
eu só posso esperar com você
eu só posso querer acreditar
que um dia desses vai parar
de chover

Como eu faço pra te dar respostas
que não tenho nem pra mim?
Como eu te mostro um novo começo
se eu só quero saber do fim?

Eu só tento não enlouquecer
de tanto duplipensar
pra te tentar te convencer

Eu só espero não te perder
no gosto mais ameno
do meu próprio veneno
enquanto tiro o seu da sua mão
e tento te impedir

mas no fundo
ou meio raso
eu só queria
te distrair
te fazer desistir

nem tão fundo assim
acho até que você sabe
eu te quero bem, bem aqui
você sabe bem, eu quero te distrair
melhor do que ninguém
você sabe que na verdade
sou eu quem quer partir

Monday, October 31, 2011

ilusionista

tão repleto
de todos os seus detalhes
beleza vitoriana, ornamentada
a apodrecer no tempo

como todo e cada um de nós
irremediável desperdício
como diário solstício
que me canso de admirar

tão recheado
de todo seu conteúdo
que a nada se refere
e sua eterna fala
sua língua inquieta
que a meus ouvidos fere

preenchendo cada espaço
da minha impaciência
que desse nem um pio
perfeita reprodução
de seu imenso vazio
interior

tão encantador
em um fator
que não concerne
a minha preferência

tão específico
tão tanto
tudo aquilo
de que não quero
de que não preciso

admito, admiro
mas unicamente
como a um monge
se te quero
te quero
somente
de longe

Thursday, October 27, 2011

insone

de uma ponta a outra
de um oito
ciclo sem fim
de um lado a outro
de um mundo
sem mim
em queda livre
querendo ou não
fechar os olhos
chegar ao chão
o indo e vindo
o infinito
o loop do abismo
silêncio no replay
a voz dos ventos
da terra sem lei
a dor do mundo
do poço sem fundo
naquele verde
sem medo de intimidar
naquela dor
sem hora pra parar
e o medo e o tempo
o velho e o mar
a ordem do caos
nos regendo
e todas as vidas
e todas as crenças
e as vontades,
e as oportunidades
perdidas,
foram abertas
todas as feridas
que se amontoaram
sobre o que já não está
olhar para trás
e só encontrar
neblina e incerteza e escuridão
e para frente o nada
em sua imensidão.

se por acaso,
por um momento,
eu olhar para o lado -
me pergunto,
noite após noite,
insone,
se vou encontrar sua mão.

Thursday, October 20, 2011

foda-se

Por que eu escrevo?
Pra que diabos eu escrevo mesmo? Pra quê?
Não sei se é um transe de surrar o teclado freneticamente, depois abrir os olhos e encontrar aquelas palavras malditas na tela e sentir um arremedo de alívio, por pelo menos tirar aquilo de dentro, do estômago, da garganta, dos ombros, dos músculos todos se contraindo tanto o tempo todo.
Eu sei lá se isso adianta. Eu já não sei se me realizo ou se só patino na lama e na desgraça e no vazio e no medo e na insegurança e na incerteza e em todas as vírgulas que eu simplesmente não quero mais colocar, por quê de repente as vírgulas me irritam, e a gramática e a ortografia e reforma ortográfica e o mundo todo, absolutamente tudo me irrita.
E eu só quero descansar um pouco, mas eu não consigo. Eu sou incapaz de descansar, de relaxar, de deixar pra lá. Mesmo sabendo que não adianta nada, que o que eu puder fazer, eu simplesmente devo fazer e o quando eu não puder, não vai adiantar me preocupar mesmo, então que diabos?
Eu não me aguento mais. Meu ombro já cansou de digitar isso aqui, mas alguma coisa me faz continuar. Eu já cansei de tudo, tudo, mil vezes. Mil e uma. Duas mil. E eu continuo aqui naquele simulacro de frustração, dia após dia, um dia depois do outro em um milhão de coisas que eu não suporto mais. Eu não me suporto mais.
Eu preciso sair daqui.

Wednesday, October 19, 2011

greve dos correios

te mandarei
em mandarim
aos poucos
pedaços de mim
e pela manhã
quando as caixas
chegarem
você abrirá
uma por uma
e verá
meu quebra-cabeças
e minhas palavras
tão espessas
sem explicação
você vai
tentar me montar
pra entender
minhas razões
procurar
minha tradução
mas nada
nada nada
em absoluto
jamais
sob hipótese alguma
fará sentido
mas lá estaremos
eu aos pedaços
e você
comigo.

Thursday, September 15, 2011

acabar

eu subi
cheguei aqui
no sufoco
em meio
ao medo
e a indecisão
e a incerteza
e agora
aqui em cima
nada é
como parecia
foi como
colocar a cabeça
pra fora da janela
sentir o vento
pra tentar adivinhar
a temperatura
não me sinto segura
como achei que seria
não há nada
das promessas
nem o tempo
passa mais depressa
e nada faz sentido
nada se resolveu
nada se diluiu
nada se desfez
só o nada permanece
em sua insensatez
misturada com a minha
e o meu desatino
o meu medo
e o meu destino
e um passo depois do outro
e a corda no meu pescoço
e a pedra no meu sapato
e o vento nos meus cabelos
é como se eu fosse um rato
sem chance de enfrentar
sem chance de voltar
só me resta seguir
só me resta continuar
um plano tão consistente
uma realidade tão dormente
só mais um passo
pra fora dessa cadeira
pra longe dessa beira
pra fora dessa ponte
um último mergulho
só olhar pra trás
uma última vez
só me perguntar
se algo se desfez
antes de me desfazer no ar
antes de me desmanchar
anter de jogar tudo fora
sem pensar que nada vale a pena
que nada faz sentido
e que não dá mais
não dá mais
sem hesitar
sem pensar que é só agora
com uma raiva na garganta
por toda essa demora
que se alonga nos meus músculos
que rasga a minha carne
sem piedade
me tira a vontade
e apaga aquela voz
dentro de mim
dizendo que vai passar
que pode passar
que pode ser que passe
e aumenta aquela escuridão
que tem fome de mim
e deixa um rastro de destruição
que responde que não vai
que não passa
que é melhor dar um passo
em qualquer dia bonito
me atirar
no abismo do infinito
e acabar.

Monday, September 12, 2011

Confessional

This is not a product
this is not for sale
This is not supposed to make you smile
make you feel warm inside
or make you identify with
This is not supposed to be cool
or good
in any possible way
This is not a joke
This is not just for show
This is confessional
This is hard
This is not supposed to be
just another verse
but it probably is
This is not about you
or anybody else
This is about me
This is a chance for me to scream out
all the things I'm not even sure
if I want someone to hear
This is confessional
This is about what it is
This is about me
and that's it.

Saturday, September 10, 2011

the last dance

I'm sick and loveless
in love with the future
but he's so cold
and so distant
I can't reach
oh no, oh no

I'm in love and sick and sad
just trying to turn it around
I know I'm probably going mad
trynna pay attention to a sound
that's only in my head

just wish the words could tell
wish I could just say
that I'm in love with a shadow
a needle in the hay

a beautiful distortion
my futuristic portrait
such a science fiction
for such an easy bait

so why can't I just
grow out of this
oh why do I must
be such a sorry miss

maybe, just maybe
I found the way out
and maybe, just maybe
you know what it's about

I'm sick of being here
and life isn't worth the pain
so maybe, just maybe...
tomorrow I'll loose the strain

and maybe, just maybe
you will never see me
again

Monday, September 05, 2011

clouds

it's like I swallowed
an iceberg when I see you
and I wonder if it has
anything to do with

the fact that I still
want you somehow
and all the things you said
killing me now

you locked yourself inside me
and felt like in a cage
but I'm opening up all doors now
though you still can't fly away

so I wish I had the guts
to say everything
troubling my mind
instead of swallowing
every cloud in the sky

I wish I could just spill it
and get it over with
to stop thinking
about how you'd react

it's just not fair
again I'll go to bed
trying to repair
what's in my head

you locked yourself inside me
and felt like in a cage
but I'm opening up all doors now
though you still can't fly away

all those spikes and strains
all those meaningless silences
and the bad moments
they might've spoken
for themselves

all those explosions inside
maybe they already said it all

still I can't get around it
still I wish I had the guts
to say what's troubling my mind
instead of swallowing
every cloud in the sky

shitty day

they changed the recipe
of your favourite dish
and when you went in
they changed your seat

the sun is not shining right
something is wrong with the sky
it's not me, but I've got to say
what a shitty day

all my distractions
bore me
and my obligations
kill me

I can't procrastinate
all over again
but there's no way
I'm gonna work things out
in such a shitty day

I can't pay attention
to what you're saying
so quit the talking

my favourite candy
tastes weird
everything feels wrong

it's too dramatic
for my standards
I'd rather be automatic
or not be at all

what a shitty day
I don't like it
can't I just skip it?
do I really have to stay?

Thursday, September 01, 2011

another state

she's a saint
in her saint fabrics
and she's as good
as any furniture

and I'm not going anywhere
'till she had enough of me
and I'm not doing anything
'till she sets me free

so far I don't know where I am
so fond of things I don't know
and again I feel like a bait
trying to reach another state

'cause I feel trapped in here
it's like I'm gonna disappear
feeling like I'm going blind
and I need, I need so much
another state, another state of mind

she's been doing me no good
and she's been keeping me up
all day long and every night
she might be made of wood
'cause she just can't be right

so why, oh why?
why can't I just runaway?
why can't I find
another state, another state
another state of mind?

Monday, August 22, 2011

mais do mesmo de novo

tudo ou nada
e eu to cansada
de falar sozinha
a escolha não é minha
e eu não aguento mais
meus olhos cansados
corações destroçados
ficamos parados
pra morrermos afogados
mas lá longe é um novo dia
e eu não sei o que fazer
não tenho energia
pra lutar
nem disposição pra morrer
tão cansada
de mãos atadas
não quero mais
falar sozinha
nem ser a rainha
da monotonia
e não me diz pra ficar
ou tentar entender
eu só vejo o que há
para se ver
mais palavras sem sentido
não vão mudar
essa avalanche
a iminência do perigo
a bola de neve
ladeira abaixo
que a gente começou
só esperando
pra nos consumir
por desleixo
descaso, vontade
de que tudo explodisse
de uma vez
esperando
que o riso
dispensasse explicação
agora é tarde
hora de juntar
os restos da explosão
tocar o cortejo
e desejar que na próxima
seja menos pior
ou menor
e que o acaso
não nos leve
a tantos enterros
tanto faz
eu só queria
novos erros

Thursday, August 18, 2011

Hurricane

I checked the messages
over and over again
trying to get it together
but it didn't make any sense

I guess it's my last night
therefore the last shot
a stupid trial
before the end

I tried to escape
from the unavoidable
and tried to surprise
the unshockable

turns out nothing
not a single thing
made any difference
it's all the same

and here I am
can't sleep
once again
the only company
I've got
is this pain

beating stronger
inside of me
beating the life
out of me

and here it is
it's my last shot
and then after this
my life will be
just another stain

I got to that wall
the end to all the meanings
that makes us feel so small
and all I found was a blank

but I'll take it
I'll take it with me
'cause I can't turn my back
and just walk away

I'll paint it
with my brains
using bullets
and razors
and ropes
as brushes
and my pale blood
as the ink

there's really nothing else
it would serve for
if you think

and nobody will write
a word about it
'cause after all
in spite of every joke
and after all the games
and living through
the unbearable pain
despite of everyone
I was in vain

Saturday, August 06, 2011

de passagem

foi só uma miragem
paisagem, bobagem
foi só de passagem
sem poder parar
pra olhar e tentar
entender

e eu sei que muito
vai ficar pra trás
a minha vontade
era voltar buscar
mas não posso, não dá
não dá pra desviar

eu só queria
te fazer entender
a mensagem
sem que eu tivesse
que interromper viagem
eu só queria te dizer
que eu não planejei

eu sigo sem olhar pra trás
o perigo é não saber jamais
o dano que ficou
mas não importa o que eu disse
não interessa o que eu fiz
na verdade é muito fácil
só poder ser infeliz

eu só queria deixar claro
que não foi a intenção
se foi tudo pelo ralo
escorrendo pelas mãos

eu nunca quis ser a miragem
clássica visão de oásis
mas eu não pude avisar
eu só estava de passagem
e não sei nem se vou voltar

eu só queria te ter mais perto
mas fui morrer
de sede no mar
e no meio do deserto
acabei por me afogar

insistimos em não ver
que não há volta
pra momento algum
temos tão pouco tempo
somos tão pequenos
levados pelo vento

eu nunca fui de meias palavras
saltos altos e saias plissadas
eu nunca planejei
não foi o que eu quis
não dá pra imaginar
ou tentar ser feliz

o que eu posso dizer?
eu só quis chegar mais perto
tentar te entender
ver se dava certo

eu só queria te ver
só queria te beijar
não dá pra compreender
não dá pra imaginar

o acidente foi feio
nunca dá pra calcular
no começo o final e o meio

eu achei que o tempo
podia parar
pra tudo acontecer
pra se desenrolar
mas não é bem assim
não dá pra atropelar
tentar pular pro fim

não tem como não jogar
querer trapacear
criar novas regras
somos todos engolidos
sem ao menos perceber
perdemos os sentidos
caímos em demência
fazendo justamente
o que jamais faríamos
em sã consciência

Friday, June 17, 2011

The Fire

I'm living there
a month ahead
and I can't come back

I'm hanging here
barely out of fear
can't you hear?

my screams
scratch the walls
my sins
they're all so small

but still
it keeps me ill
like a dot
like a knot

something's keeping
me from breathing
keeping me around
and holding my body
against the ground

stoppping me
from being
and seeing
and reaching
my highest potential
stopping me
from being in
the real world
stopping me
from living
the life I wish
to live


and it's all
oh so steep
days go by
though I can't sleep

and even with a threat
of a glimpse
you could tell
there's nothing to hide
I've been going through hell


every now and then
I just have to ask
out of an endlessly naivety:
isn't there anything
truthful and
good - for once?

isn't there
anything or anyone at all
going to save me?

Wednesday, June 08, 2011

espelho

quando a vida
não passa de um vulto
quando se teme
o menor tumulto

e tudo vira guerra
por pura birra
cai por terra
desperta a ira

como se o ar
o bom dia
ou o silêncio

como se o medo
e o tempo
pedissem sem palavras
um pedido de desculpas
por nada em particular
mas por tudo
sem, entretanto, precisar

como se cem mil horas
durassem em uma só
e todas as vezes
em que se deixou levar
como se tudo o que há
não fosse nada mais
que uma lenta e infinita
e torta e dolorida
perda de tempo

e o desalento
e o canto
e o mundo
mesmo toda a poesia

como se, exatamente assim,
como se nada disso
fosse mais, nem menos

como se cada pedacinho
cada momento
todo e cada segundo
fosse apenas mais um
grande e gordo e enfadonho
constrangimento

e não há mais nem motivo
para não sentir
que sinto muito muito
e só posso dizer
que sinto
e muito me penaliza
o simples fato
de estar viva

e não tem retorno
não tem volta
nem caminho
não há rumo
não há jeito
a não ser
seguir sozinha.

Canção para si

Espera, faz silêncio
não te afoba
aprende a aguardar
ela está a caminho
como uma promessa
inevitavelmente
ela virá

Senta-te por um instante
controla teus instintos
aprende a suportar
cedo ou tarde
independente da demora
ela virá

Dia a dia, te consome
lenta ou não, aos teus ditames
como uma espera interminável
inevitável, tão simples
tão natural

No final das contas
tudo não passará
de um jogo de esperar
portanto pega tua cadeira
e aprende a te sentar

Poucas virtudes
são tão valiosas
como a de saber aguardar
desce do teu trono
e aprende que
neste jogo não há dono
de nada, nem de ninguém

Aprende a calar-te
sem dizer amém
ao final de cada frase
aprende a seguir
e sorrir e sentir
e morrer

Aprende a esperar
que nada daquilo que se supôs
na realidade o é

Aprende a compreender
o teu querer
E, assim, compreende como
te desfazer

E vai, vai
sem olhar para trás.

Sunday, June 05, 2011

Pra ninguém ouvir

Compus uma canção
para alguém qualquer
mas tanto faz

Perdi a atenção
como quem não quer
voltar jamais

Escolhi um vestido
dos mais bonitos
mas já não importa

A cor do tecido
não disfarça o fato
de que ela está morta

Ela está morta
e não há esforço que possa
mudar o que quer que seja

Não há paz ou beleza,
alegria ou tristeza,
não há mais nada

Ela está morta
muito embora
ainda respire.

Saturday, June 04, 2011

Rota de Colisão


É preciso muita coragem pra acordar no meio da noite, pular pra fora das cobertas, num dia frio de arder o corpo todo, e sair correndo. Uma coragem insana, cega e pouco dotada de sensibilidade cutânea e terminações nervosas. É preciso frieza. Talvez um pouco de estupidez e desprendimento e aquela sensação que se impregna de repente, lhe dizendo que não há absolutamente mais nada a perder.

Há de ter algo forte, tão terrivelmente forte que se sinta que é impossível pará-lo com as próprias mãos. É preciso dessa força incontrolável crescendo dentro de si, produzindo uma sensação de total impotência externa diante de sua incomparável e esplendorosa imponência interna.

É preciso muita covardia. Muitas lágrimas rolando rosto abaixo em sucessivas e intermináveis noites raivosas, sem que se saiba exatamente a que se devem, sem que se possa ou entenda um modo eficaz de impedi-las, de contê-las, de compreendê-las, de vivê-las. Somente de tê-las e a fraqueza que inevitavelmente invade na mesma proporção em que o rosto se umedece e salga. É preciso muito silêncio e muito medo e muita muita covardia e falta de jeito pra lidar com tudo isso. É preciso estar total e absolutamente encurralado.

Sentir que o ar que invade seus pulmões, que o sangue que corre por suas veias e que os raios e trovões que mantém seu coração bombando são perfeitamente capazes de, repentinamente, voltar-se contra a máquina que vêm mantendo de modo tão natural, involuntário e aleatório.

É preciso que a insegurança seja maior que o próprio corpo, que a própria vida, que tudo que há de mais sagrado - mesmo a descrença ao sacro e tudo que dele provém e deriva e esterca e deslava.

Para que o corpo todo se torne um pêndulo, uma massa insignificante, servil, obediente, temente. Para que se vire, se toque e ande, se esperte, se entenda, se ajude, se alegre, perdure, se enrole, se embrome, se alimente, entre na fila e abaixe a cabeça, finja, atue, minta, siga o manual, as regras, a etiqueta, os modos, se eduque, se contenha, se contente, se mantenha, se foda e se mate.

Como se nada tivesse acontecido.